Na Abramet, a nova Diretoria Administrativa atuará com foco no fortalecimento da medicina de tráfego no País, afirma José Montal

Apoiar as iniciativas dos departamentos técnico-científicos para levar ao médico de tráfego conhecimento e atualização permanente, onde quer que ele esteja, é a prioridade da nova gestão da Diretoria Administrativa da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). Com 44 anos dedicados à especialidade, José Heverardo Montal assume  o comando dessa área com o objetivo de tornar a entidade ainda mais presente na qualificação profissional do especialista.

“A responsabilidade da medicina de tráfego é muito grande. O acidente de trânsito é a patologia do século 21”, afirma. Segundo ele, a especialidade entrou em sua vida já na infância, quando um acidente de trânsito tirou a vida de um tio. O impacto da perda e suas circunstâncias estiveram presentes em sua trajetória na medicina, o que, combinados com sua vocação, o aproximou da medicina de tráfego logo depois de formado.

“Quando saí da Bahia e fui pra São Paulo, uma das oportunidades de trabalho foi exatamente a avaliação de condutores. Ali comecei a ver que esse tema era um manancial de necessidades, uma causa importante de agressão a saúde humana que exigia um esforço pela preservação da vida”, lembra.

Passados tantos anos, Montal mantém não apenas a vocação, mas também o entusiasmo pela medicina de tráfego. “O trânsito ainda mata muito no Brasil. Por que não lutar para reduzir isso e quem sabe chegar à morte zero em algum momento? Esse é o nosso papel”, diz. Na entrevista a seguir, o diretor administrativo da Abramet comenta os planos da nova gestão para apoiar o especialista e fortalecer a especialidade.

Como o senhor avalia o momento atual da medicina de tráfego?

JHM – Podemos dizer que houve um grande avanço da medicina de tráfego como agente de qualificação das políticas de saúde no trânsito. A partir do momento em que a própria Organização Mundial de Saúde qualificou o acidente de trânsito como doença a ser combatida, colocou a medicina nessa agenda do trânsito e introduziu a percepção de que seus efeitos colaterais são importantes. O trabalho que a medicina de tráfego tem feito ao longo dos anos resultou numa percepção mais verdadeira do que significa o trânsito. Talvez seja a único fenômeno humano em que o conhecimento das leis é mandatório, porque o desconhecimento constitui um risco. O pacto pela convivência – feito via democracia, pelo parlamento, pela discussão em sociedade – depende muito do que se sabe dos riscos que o trânsito representa. Nesse contexto o médico é muito importante. Assim como em outras doenças humanas, a medicina de tráfego tem a etiologia dos acidentes. Costumamos dizer que os acidentes não são acidentais. Existem causas e, felizmente, podem ser prevenidas. Há exemplos: quando a medicina de tráfego ajudou a formular a lei seca, houve uma redução fantástica de mortalidade, de até 35%. Mudou-se a percepção da sociedade para o risco que beber e dirigir representa. Essa é uma vitória que pode ser creditada em parte à medicina de tráfego. O pensamento da nova diretoria da Abramet é investir nessas possibilidades de fazer com que o trânsito seja mais saudável. Temos usado essa denominação, para além da segurança: que seja um trânsito saudável, em que a possibilidade de todos conviverem seja algo verdadeiro. Algumas civilizações do mundo já conseguem isso e matam muito menos que aqui. Na Alemanha, os índices de mortalidade no trânsito estão em 4 por cem mil habitantes e no Brasil em 17 por cem mil. Ou seja, apesar de estarmos mal colocados, temos a chance de conseguir uma redução fantástica. No Brasil, já foram 40 por cem mil e caiu para 17. Porém, ainda há muito para chegarmos a ser um país civilizado no trânsito. É um caminho longo a percorrer e o que podemos fazer é buscar que esse caminho seja trilhado com mais velocidade.

Quais são os planos e temas prioritários para a sua gestão?

JHM – A Abramet tem primado por uma gestão colegiada, dispõe de um coletivo de inteligências a disposição de uma causa, que é a preservação da vida no trânsito. Há oito mil médicos de trânsito no Brasil e queremos transformar cada um desses especialistas em um vetor de propagação de uma nova consciência. Vamos nos empenhar para isso. A percepção da associação tem inteira correlação com a qualidade, com o que fazemos na prática da medicina de tráfego. Quanto mais qualificada a atuação do médico especialista, maior a possibilidade de sermos convincentes nesse discurso junto ao poder público e à sociedade. A qualificação dos procedimentos dos médicos é prioridade absoluta dessa gestão.

Qual a contribuição da diretoria administrativa para alcançar esses objetivos?

JHM – A diretoria administrativa é, como se diz no futebol, o carregador de piano. Tem de estar tudo funcionando para que essas ideias e perspectivas se tornem realidade. Vamos alcançar esse objetivo dando fluidez a pontos como o compromisso dos recursos humanos em torno da associação, o fortalecimento da comunicação com os associados e especialistas, que são dois universos paralelos, mas que tem o mesmo escopo de conhecimento para atuar, dentre outros. Fazer com que médicos que atuam nessa área se tornem sócios da Abramet é uma das metas da nova diretoria. O médico, de maneira geral, não vive um bom momento do ponto de vista da percepção da sociedade. Já fomos o profissional melhor visto pela sociedade e hoje temos perdido as primeiras colocações. Um dos objetivos dessa diretoria é mostrar a importância do médico na sociedade. É a possibilidade que temos de contribuir para o resgate da percepção positiva da figura do profissional médico na sociedade.

O que esperar no campo da educação continuada e defesa da especialidade?

JHM – O próprio fato de existir a nossa especialidade, uma das 55 reconhecidas e uma das que mais crescem no país, já pressupõe que o conhecimento seja algo absolutamente prioritário para uma associação que cuida de ciência. Fornecer conteúdos, informações, conhecimento, análises e participar dos debates, das câmaras temáticas e técnicas que existem para os temas da mobilidade e da saúde, também têm sido prioridade da Abramet. Esse processo será reforçado nessa nova administração. Já participamos da Câmara Temática de Saúde e Educação do Conselho Nacional de Trânsito e de várias outras câmaras técnicas nos Conselhos Regionais e Federal de Medicina. Participamos ainda de grupos que cuidam de um aspecto epidemiológico importante: das taxas de mortalidade e lesão no trânsito, como o crescimento absurdo da mortalidade entre motociclistas e ciclistas. Também estamos dentro das discussões dos sistemas, dos comitês criados pelas municipalidades e Estados. Enfim, a qualificação do médico é absolutamente prioritária e identificar os mecanismos de educação mais adequados para fornecer esses conteúdos também é uma preocupação da nova diretoria.