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Abramet publica diretriz focada em condutores diagnosticados com TDAH

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Impulsividade, desatenção, agitação. Esses são os sintomas mais conhecidos do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), doença neurobiológica com origem genética, desenvolvida na infância e que, em geral, acompanha a pessoa ao longo de sua vida. O diagnóstico e o tratamento também podem ser feitos na idade adulta. Para contribuir com o atendimento a esse público, a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET) lançou diretriz inédita, apresentando dados e recomendações sobre a doença para subsidiar a atuação do médico do tráfego em todo o país. Estudos internacionais registram que o portador de TDAH tem duas vezes mais chance de se envolver em um sinistro de trânsito.

O documento Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e condução de veículos automotores foi lançado nesta segunda-feira e marca o início da Semana Nacional do Trânsito 2023. “Essa é mais uma contribuição para uma medicina do tráfego de excelência, atenta aos temas mais importantes do dia a dia, ancorada em evidências científicas”, comenta Antônio Meira Júnior, presidente da ABRAMET, que participou da formulação do documento.

“Temos trabalhado sempre focados na preservação da vida humana e no entendimento de todos os contextos que podem alcançar o condutor e impactar a segurança no trânsito”, acrescenta. Segundo ele, ampliar o conhecimento sobre a doença colabora não apenas para a melhoria do atendimento do condutor com diagnóstico de TDAH como, também, para esvaziar o estigma gerado pela presença de transtornos neurológicos. “A ABRAMET entende que todo condutor deve ser enxergado em sua totalidade e orientado de acordo com sua condição”.

CONHEÇA A DIRETRIZ

“Essa diretriz ilumina uma questão médica de grande relevância, especialmente porque o TDAH, assim como outros distúrbios neurológicos, pode influenciar a capacidade de dirigir. Está provado cientificamente que esse condutor tem maior propensão a se envolver em sinistros”, afirma Flávio Emir Adura, diretor científico da ABRAMET. “Compreender o condutor portador de TDAH, orientar o médico do tráfego e melhorar o seu atendimento são ações essenciais para proteger a vida desse público no trânsito e, consequentemente, de toda a população”, destaca.

Adura lidera o grupo de especialistas que assinam a diretriz. Além do presidente da ABRAMET, trabalharam com ele os médicos do tráfego Alcides Trentin Júnior, Alyson Coimbra de Souza Carvalho, Aquilla dos Anjos Couto, Arilson de Souza Carvalho Júnior, Egas Caparelli Moniz de Aragão Dáquer, Ester Vago, Joan Faber, José Heverardo da Costa Montal, Ricardo Irajá Hegele, e Victor Enrique Mendoza Ramos.

Risco dobrado – A diretriz Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e condução de veículos automotores é resultado do debate de tais especialistas, com base nas mais recentes referências bibliográficas oferecidas pelas mais importantes e reconhecidas bases de dados e recomendações nacionais e internacionais sobre a doença. A cronicidade da doença, que alcança também o público adulto e potenciais condutores de veículos, sustenta o interesse da medicina do tráfego em atualizar o conhecimento sobre o tema.

“Estudos epidemiológicos (metanálises) concluem que o risco relativo de uma pessoa com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) se envolver em sinistros automobilísticos é 1,54 vezes maior. Estudos observacionais, que utilizaram dados oficiais e informações autorrelatadas, concluíram que condutores com TDAH apresentaram um risco quase dobrado de se envolver em sinistros automobilísticos e, com mais frequência, cometiam infrações de trânsito”, observa a diretriz.

A equipe de especialistas conceitua e esclarece os tipos da doença, seus sintomas e diagnóstico, assim como as abordagens terapêuticas e a influência do uso de medicamentos por esse público sobre sua capacidade de dirigir. A ABRAMET, inclusive, sinaliza que outras doenças podem ter sintomas similares, assim como comorbidades e outras condições médicas de interface, alertando o especialista para os parâmetros seguros de diagnóstico do TDAH. “(…) São necessários seis ou mais sintomas particulares de desatenção ou hiperatividade para atribuir a classificação de determinado subtipo. De forma que o subtipo combinado, mais comum, ocorre quando coexistem seis ou mais sintomas de desatenção e seis ou mais sintomas de hiperatividade-impulsividade”, aponta a diretriz.

“A presença de comorbidades representa uma dificuldade adicional para o diagnóstico, já que ocorre em cerca de 70 % dos casos, cabendo ao médico a habilidade de distinguir se está diante de um transtorno mental com sintomas que mimetizam TDAH ou se existe um quadro de TDAH com comorbidades”, diz o documento. “A diretriz aprecia o TDAH de forma ampla e aprofundada, trazendo todos os fatores que devem ser conhecidos e considerados pelo médico do tráfego diante de um candidato a condutor”, aponta Flávio Adura.

Fatores de risco – Segundo a ABRAMET, a incidência de TDAH estimada em crianças e adolescentes é de 3% a 8% da população mundial. Evidências científicas sustentam a continuidade na idade adulta, com prevalência estimada entre 2,5% e 3,0%. No Brasil, aponta a diretriz, a prevalência de TDAH é estimada em 7,6% em crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos; 5,2% entre 18 e 44 anos e 6,1% nas pessoas maiores de 44 anos. Dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) contabilizam cerca de 2 milhões de pessoas portadoras da doença.

A diretriz preparada pela entidade apresenta dados sobre os fatores de risco de sinistro associados a esse público, trazendo dados e análises sobre o tipo de veículo e o comportamento de condutores de motocicletas, por exemplo. “Pessoas com TDAH são mais lenientes com relação à velocidade que conduzem seus veículos automotores, necessitando compensar esse risco por habilidades e experiências adquiridas. Estudo realizado em simuladores de direção concluiu que apresentam maior prejuízo na condução relacionado a emoções (raiva e frustração) do que pela desatenção”, esclarece.

“Estudo, com mais de 17.000 motoristas, constatou taxas mais altas de colisões envolvendo pessoas com TDAH em relação ao grupo controle, sendo (6,5% X 3,9%) para os homens e (3,9% X 1,8%) para as mulheres. O risco relativo, avaliado por metanálises, para colisões de veículos conduzidos por pessoas com TDAH é 1,36 a 1,88 vezes maior”, sinaliza o documento. Outro aspecto trazido pela ABRAMET é uma compilação das legislações observadas em diversos países do mundo, e a brasileira, para mostrar como o condutor com TDAH é tratado.

A diretriz apresenta ao médico especialista um conjunto de recomendações para o atendimento a esse público. Uma delas trata da aplicação do Exame de Aptidão Física e Mental (EAFM), instrumento para a análise do candidato a condutor ou a renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), cuja realização é prerrogativa exclusiva do médico do tráfego inscrita no Código Brasileiro de Trânsito (CTB).

A ABRAMET recomenda que, ao realizar a avaliação de candidato portador de TDAH, o médico especialista solicite um relatório padronizado ao profissional que acompanha o candidato, preferencialmente neurologista ou psiquiatra, que deverá informar o tempo de acompanhamento do paciente; o diagnóstico de TDAH; o uso de medicação para TDAH (e quais); a aderência à terapêutica proposta. O candidato também deverá apresentar um parecer favorável à direção de veículos automotores, assinado por seu médico.

A diretriz também sugere como deve ser concluída a análise de aptidão do candidato, recomendando ao médico do tráfego a constatação de compensação clínica e comorbidades; considerar avaliação psicológica complementar na renovação da CNH para melhor testagem da função atencional; e no caso de aptidão do candidato, diminuir o prazo de validade do EAFM. O médico também deve orientar o candidato a condutor para uma direção saudável e segura, conforme os cuidados apontados na diretriz.

“O objetivo da ABRAMET é levar ao médico especialista informação atualizada e confiável sobre o TDAH, de forma que ele possa tomar melhores decisões no atendimento a esse público, assim como garantir ao portador da doença o direito de dirigir, com segurança e saúde”, observa Flávio Adura.